Seguidores

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Educação: o direito ao letramento

Mais que condição "sine qua non" para que as crianças avancem na escolarização, o letramento potencializa o exercício da cidadania

"Fui passando, passando, passando e cheguei na quinta série sem saber ler nem escrever. Daí minha mãe me colocou na primeira série de novo, quando eu tinha 11 anos." Essa é a trajetória da Tia Edna, que, mesmo sem abandonar os estudos ou ser reprovada, concluiu o ensino médio apenas aos 22 anos. Hoje, com 39, ela se dedica a dar aulas de reforço para crianças na periferia de São Paulo, a maioria não alfabetizada.
O problema vivido por Tia Edna persiste. A sociedade brasileira ainda não solucionou a desigualdade que afeta, particularmente, territórios vulneráveis como as periferias urbanas e as zonas rurais. É preciso reconhecer as desigualdades que marcam o acesso à língua escrita e às práticas de letramento no Brasil.
Apenas 1 em cada 4 brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura, escrita e matemática. Da população de 15 a 64 anos, 27% é analfabeta funcional --a proporção de analfabetos funcionais na área rural é de 44% e de 24% nas áreas urbanas. Um em cada 4 brasileiros que cursaram até o ensino fundamental 2 tem nível rudimentar de alfabetismo e somente 35% dos brasileiros com ensino médio completo podem ser considerados plenamente alfabetizados (Indicador de Alfabetismo Funcional 2011/2012).
O conceito de letramento é uma evolução do termo alfabetização. Busca responder à complexidade das demandas de conhecimento atuais, incluindo as novas mídias e linguagens. Letramento designa as diferentes práticas de leitura e escrita nos diversos domínios da vida social como o trabalho, a família e a escola.
Mesmo considerando a história de superação de tantas Tias Edna, os alunos das escolas públicas não deveriam precisar de aulas de reforço particulares. A escola é a instituição que trabalha intencionalmente o ensino da leitura e escrita. É, portanto, sua responsabilidade garantir o letramento da população, para que o indivíduo usufrua das oportunidades da sociedade contemporânea. Para isso, é necessário fortalecer o papel do professor, peça-chave para assegurar o letramento do aluno, investindo em sua formação continuada.
Mais que condição "sine qua non" para que as crianças dominem os demais aprendizados e competências e avancem na escolarização, o letramento é um direito humano. Condição que potencializa o exercício da cidadania, contribui para a formação individual e a autonomia.
A sociedade globalizada demanda cidadãos que pensem globalmente e atuem localmente. Cidadãos capazes de fazer uma leitura de mundo e contribuir para a sustentabilidade do planeta.
A escola tem que ser eficaz em seu papel fundamental de garantir o direito ao letramento, estimulando o acesso às novas práticas originadas pela cultura digital. Só assim conseguiremos avançar na construção da nação que desejamos neste século 21 --uma sociedade que, além de economicamente desenvolvida, seja socialmente justa e sustentável.
Em tempo: Tia Edna é o nome fictício de uma entrevistada na pesquisa Educação em Territórios de Alta Vulnerabilidade Social na Metrópole, coordenada pelo Cenpec, em 2012. 

Texto de MARIA ALICE SETUBAL, doutora em psicologia da educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é presidente dos conselhos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e da Fundação Tide Setubal 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Usinas nucleares: entre a desinformação e a insanidade

Chico Whitaker escreve
Entre a desinformação e a insanidade

Preocupa o possível acordo nuclear do Brasil com o Japão. Nossos irmãos japoneses estão em pânico com vazamentos radioativos em Fukushima

No Brasil, quando falamos dos riscos das usinas nucleares, as pessoas nos olham como se fôssemos ETs desgarrados, perguntando-se, quase penalizados, o que nos teria acontecido para abordarmos assunto tão fora de hora e lugar...

E nem foi há tanto tempo que aconteceu o desastre de Fukushima! Mas nosso instinto de autodefesa logo empurra más lembranças para o esquecimento.
Assim é que cada vez menos gente se recorda das 19 gramas de césio-137 que em 1985 foram retiradas, num ferro velho de Goiânia, de um aparelho de radioterapia e mataram, até se descobrir que eram radioativas, dezenas de pessoas e provocaram amputações e doenças diversas em centenas de outras.
Mas por que falar de acidentes de tão pouca probabilidade? O que acontece é que aqueles que têm a sorte (ou o azar) de serem informados um pouco mais (só um pouco já assusta) sobre o que aconteceu em Chernobyl em 1986 e continua a acontecer em Fukushima desde 2011 não podem dormir tranquilos.
Menos ainda quando constatam, de um lado, a desinformação da maioria e, de outro, a insanidade dos que promovem o uso de reatores nucleares para produzir energia elétrica --esse modo extremamente perigoso de esquentar água e produzir vapor para girar turbinas.
Um punhado de brasileiros quer chamar a atenção das autoridades políticas para a tragédia que poderia atingir as mais de 30 milhões de pessoas que vivem no Rio e em São Paulo e suas regiões se acontecer um acidente em Angra dos Reis.
Mas são como vozes que clamam no deserto, enfrentando tanto enormes interesses econômicos nacionais e internacionais que lucram com o nuclear, como interesses militares que ainda sonham com o Brasil Grande, submarinos atômicos e armas nucleares, como se este fosse o preço a pagar --alto demais...-- para o Brasil integrar o seleto clube de detentores de bombas que compõem o Conselho de Segurança da ONU...
Nesse quadro, é triste tomar conhecimento da escandalosa decisão da Caixa Econômica Federal de emprestar dinheiro para a conclusão da terceira usina nuclear de Angra.
O governo brasileiro tinha, para isso, pedido um empréstimo a bancos europeus. Estes exigiram que o Brasil mostrasse que estavam sendo respeitadas as normas de segurança da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), respondendo ao questionário da "prova de resistência". Nosso governo não teve condições de fazê-lo, e o empréstimo europeu não saiu. Numa clara demonstração de irresponsabilidade social e autismo político, esse cuidado com a vida de tanta gente pareceu desnecessário à Caixa.
Igualmente preocupante é a possibilidade de a presidente Dilma ir ao Japão assinar um acordo nuclear para trazer tecnologia e equipamentos de lá, quando nossos irmãos japoneses estão entrando em pânico ao não conseguir evitar vazamentos radioativos em Fukushima...
É por isso que cerca de cem entidades civis, japonesas e brasileiras, uniram-se num abaixo-assinado a ser entregue aos governos de seus países como oposição à possível cooperação entre eles nessa área.
Não seria de estranhar que nas próximas manifestações nas ruas do Brasil surgissem cartazes com as palavras "Pela Vida: Xô Nuclear!".

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

XI SARAU VIRTUAL DO GRUPO CAIXA DE POEMAS/MROCK



Eu convido você à ouvir agora o XI Sarau Virtual do Grupo Caixa de Poemas (Facebook) transmitido ao VIVO pela rádio web MROCK (Facebook) em 17/08/2013.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MÉDICOS SÃO ESCRAVOS DO GOVERNO CUBANO


DITADURA EXPLORA MÉDICOS
Cuba fica com a maior parte do salário e retém família para evitar asilo

Explorado pela ditadura, médico cubano só vai receber 7% do seu salário 


A “importação” de quatro mil médicos cubanos é parte dos gastos gigantescos do Brasil na ilha comunista em diversas obras de infraestrutura e na própria medicina cubana: dados de 2011 do ONE, o IBGE local, mostram quase quatro mil clínicas foram fechadas e que houve queda de 10% no número de médicos.

É dramático”, segundo afirmou o médico cubano negro Darsi Ferrer à jornalista Teresa Barros, da equipe da coluna do jornalista Claudio Humberto. Ferrer está exilado nos Estados Unidos desde 2012, depois de ter sido preso e torturado por denunciar o precário sistema de saúde em Cuba.
Ferrer viu de perto o sistema da ditadura comunista que explora mão de obra: a “exportação” de médicos para 70 países, resultando num faturamento anual de US$8 bilhões.

A “importação” dos médicos cubanos é o único caso em que a remuneração de R$ 10 mil não será paga diretamente ao profissional, mas à ditadura, com a intermediação da Organização Panamericana de Saúde.

O médico cubano só receberá uma pequena parcela do salário, cerca de 7%. Outra parte, também mínima, é entregue à sua família, obrigada a permanecer em Cuba como refém, para impedir que o médico peça asilo político. A maior parte do salário do médico, cerca de 70%, fica com a ditadura.


Ex-prisioneiro de consciência da Anistia Internacional, o médico cubano Darsi Ferrer lembra que os colegas não têm internet e acesso à literatura atualizada.


Do Diário do Poder

quarta-feira, 31 de julho de 2013

IDH de SERICITA: PÉSSIMO

Sericita está na posição 5.049, com baixo desenvolvimento humano. 

Falta pouco para disputarmos com MELGAÇO o pior lugar do IDH.

Acredito que seja um erro estatístico, onde as autoridades não prestam as informações corretas e por isso caem na nota mínima, mas se for VERDADEIRO, nós estamos muito mal na fita. 
IDH 0,560 
Longevidade 0,776
Renda 0,602
Educação 0,375
O fator EDUCAÇÃO nos derrubou, eu SINCERAMENTE não acredito que existam tantos analfabetos em SERICITA, ou estou errado?

Se compararmos com ABRE CAMPO que está na posição 3.030 e
Jequeri 4.123 a coisa fica ainda pior.

sábado, 27 de julho de 2013

Fascismo em nome de Deus

Drauzio Varella escreve

Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos?
Há manhãs em que fico revoltado ao ler os jornais.
Aconteceu segunda-feira passada quando vi a manchete de "O Globo": "Pressão religiosa", com o subtítulo: "À espera do papa, Dilma enfrenta lobby para vetar o projeto para vítimas de estupro que Igreja associa a aborto".
Esse projeto de lei, que tramita desde 1999, acaba de ser aprovado em plenário pela Câmara e pelo Senado e encaminhado à Presidência da República, que tem até 1º de agosto para sancioná-lo.
Se não houver veto, todos os hospitais públicos serão obrigados a atender em caráter emergencial e multidisciplinar as vítimas de violência sexual.
Na verdade, o direito à assistência em casos de estupro está previsto na Constituição. O SUS dispõe de protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde especificamente para esse tipo de crime, que recomendam antibióticos para evitar doenças sexualmente transmissíveis, antivirais contra o HIV, cuidados ginecológicos e assistência psicológica e social.
O problema é que os hospitais públicos e muitos de meus colegas, médicos, simplesmente se omitem nesses casos, de forma que o atendimento acaba restrito às unidades especializadas, quase nunca acessíveis às mulheres pobres.
O Hospital Pérola Byington é uma das poucas unidades da Secretaria da Saúde de São Paulo encarregadas dessa função. Lá, desde a fundação do Ambulatório de Violência Sexual, em 1994, foram admitidas 27 mil crianças, adolescentes e mulheres adultas.
Em média, procuram o hospital diariamente 15 vítimas de estupro, número que provavelmente representa 10% do total de ocorrências, porque antes há que enfrentar as humilhações das delegacias para lavrar o boletim de ocorrência.
As que não desistem ainda precisam passar pelo Instituto Médico Legal, para só então chegar ao ambulatório do SUS, calvário que em quase todas as cidades exige percorrer dezenas de quilômetros, porque faltam serviços especializados mesmo em municípios grandes. No Pérola Byington, no Estado mais rico da federação, mais da metade das pacientes vem da Grande São Paulo e de municípios do interior.
Em entrevista à jornalista Juliana Conte, o médico Jefferson Drezzet, coordenador desse ambulatório, afirmou: "Mesmo estando claro que o atendimento imediato é medida legítima, na prática ele não acontece. Criar uma lei que garanta às mulheres um direito já adquirido é apenas reconhecer que, embora as normas do SUS já existam, o acesso a elas só será assegurado por meio de uma força maior. Precisar de lei que obrigue os serviços de saúde a cumprir suas funções é uma tristeza".
Agora, vamos ao ponto crucial: um dos artigos do projeto determina que a rede pública precisa garantir, além do tratamento de lesões físicas e o apoio psicológico, também a "profilaxia da gravidez". Segundo a deputada Iara Bernardi, autora do projeto de lei, essa expressão significa assegurar acesso a medicamentos como a pílula do dia seguinte. A palavra aborto sequer é mencionada.
Na semana passada, o secretário-geral da Presidência recebeu em audiência um grupo de padres e leigos de um movimento intitulado Pró-Vida, que se opõe ao projeto por considerá-lo favorável ao aborto.
Pró-Vida é o movimento que teve mais de 19 milhões de panfletos apreendidos pela Polícia Federal, na eleição de 2010, por associar à aprovação do aborto a então candidata Dilma Rousseff.
Na audiência, o documento entregue pelo vice-presidente do movimento foi enfático: "As consequências chegarão à militância pró-vida causando grande atrito e desgaste para Vossa Excelência, senhora presidente, que prometeu em sua campanha eleitoral nada fazer para instaurar o aborto em nosso país".
Quem são, e quantos são, esses arautos da moral e dos bons costumes? De onde lhes vem a autoridade para ameaçar em público a presidente da República?

Um Estado laico tem direito de submeter a sociedade inteira a uma minoria de fanáticos decididos a impor suas idiossincrasias e intolerâncias em nome de Deus? Em que documento está registrada a palavra do Criador que os nomeia detentores exclusivos da verdade? Quanto sofrimento humano será necessário para aplacar-lhes a insensibilidade social e a sanha punitiva?
Da Folha de São Paulo de 27/07/2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Sabores e aromas de veneno

O governo distribui remédios gratuitos para diabetes e hipertensão. Quanto não pouparia com proteção contra rotulagem enganosa?
A canela que você polvilha sobre seu cappuccino contém cumarina, ingrediente básico de certo veneno para ratos. Não, não se precipite em jogar fora sua canela. Nem há risco de ela matar você como um rato nem você estaria contribuindo para reduzir a população deles no lixão.
Nos raticidas, sim, cumarina em alta dose atrai, apetece e mata o bicho. A propriedade anticoagulante da cumarina causa nele sangramentos internos fatais. Já médicos usam a mesma substância para prevenir e dissolver coágulos capazes de causar invalidez e morte por entupimento de veia. Questão de dose.
Questão que neste ponto se complica: qual seria o teor de cumarina na canela? Varia. Canela provém da casca de certas árvores. Nas da espécie "Cinnamomum cassia" (canela-da-china) pode haver dez vezes ou mais cumarina do que em "C. verum" (ou "C. zeylanicum", a "canela verdadeira"). Qual delas você consome?
Dificilmente será "C. verum", que no Brasil custaria umas cinco vezes mais do que "C. cassia". Mas como saber? A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não exige que rótulos indiquem a procedência taxonômica e geográfica do produto. Muito menos qual o seu teor de cumarina, reconhecível pelo "aroma de baunilha" em doces, sorvetes e também cosméticos vários. (Ela passa ao sangue absorvida pela pele. Questão de dose.)
Na rica Alemanha, prevalece "C. verum". Você pode compulsar os motivos dessa preferência neste relatório (em alemão) do acreditado Instituto Federal de Avaliação de Risco da Alemanha (BfR): http://www.bfr.bund.de/cm/343/neue-erkenntnisse-zu-cumarin-in-zimt.pdf.
O descaso das autoridades sanitárias do Brasil na regulamentação de rótulos vai muito além da marginal canela. Diabéticos deveriam moderar consumo de açúcar, hipertensos, o de sal. Mas, por exemplo, açúcar nos "refrigerantes" e sal nos pães são disfarçados, respectivamente, com expressões tipo "carboidratos" e "sódio".
De fato, sacarose (açúcar de mesa obtido da cana) é carboidrato. Isto é, sua estrutura química corresponde a certa combinação de carbono com água. Mas, de tão vagos, em certos contextos, os termos "açúcar" e "carboidrato" chegam a ser sinônimos. Até madeira e carapaça de siri são "açúcares" (no sentido de "carboidratos"). Toda essa ambiguidade sonega a você a informação que mais interessa: com o "refrigerante", você ingere umas dez colheres de chá de sacarose.
E que seria o misterioso "sódio"? Decerto o elemento que, combinado com cloro, dá cloreto de sódio, o sal de todos os mares e cozinhas. Em certo sentido, portanto, os rótulos não omitem o teor de sal do conteúdo. Mas sódio não é sinônimo daquilo que você entende por sal. Quantos consumidores estudaram química ou se lembram da que aprenderam na escola? Quantos diabéticos e hipertensos não sofrem de alguma deficiência visual que, própria da idade, dificulta a leitura nas letras miúdas que a Anvisa tolera nesses rótulos solertes?
O governo distribui medicamentos gratuitos para diabetes e hipertensão. Quanto não pouparia aí com proteção eficaz contra rotulagem enganosa e outras espertezas?
Brasileiro consome umas dez vezes mais sal do que precisa. Tal excesso agrava estatísticas de hipertensão, enfarte e derrame, encurta a vida útil do consumidor. Mas sal estende a vida útil de embutidos, queijos, margarina, congelados. Melhora vendas, aumenta lucro e, ah, segura o pibinho.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Aquecimento global: é inevitável o suicídio coletivo?

É inevitável o suicídio coletivo?

Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com mudança de clima que  ameaça a civilização
Em 10 mil anos de história, é a primeira vez que a humanidade tem o poder de cometer suicídio coletivo. Era essa a tese central de Emmanuel Mounier em "O Grande Medo do Século 20". Publicado em 1947, o livro se referia à ameaça de uma catástrofe atômica, angústia constante na fase aguda da Guerra Fria entre EUA e URSS. Passaram-se 66 anos e conseguimos evitar o pior.

Na época de Mounier não se sabia que os homens poderiam liquidar o mundo não só com bombas, mas com o aumento desenfreado da produção econômica e do abuso dos combustíveis fósseis. Quinze dias atrás, ultrapassamos o sinal amarelo no rumo da destruição. A atmosfera registrou 400 partículas de dióxido de carbono por um milhão.

É preciso recuar 4,5 milhões de anos para encontrar concentração comparável. O clima era então muito mais quente, quatro ou cinco graus a mais em média. No ritmo atual, não existe nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento global a dois graus como decidido em Copenhague. Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com 800 partículas e mudança de clima de dimensões que ameaçam a sobrevivência da civilização tal como a conhecemos.

A violação da marca simbólica de 400 por milhão não provocou nenhuma declaração ou alerta de chefes de Estado. Um dia depois, os jornais esqueceram o assunto e voltou-se ao dia a dia como se nada tivesse acontecido. Como explicar tal indiferença diante da morte anunciada que espera o mundo dos homens?

O silêncio é inexplicável numa sociedade na qual a ciência substituiu a religião como crença unificadora. Ora, a ciência climática não permite dúvidas:  de 12 mil estudos científicos sobre o tema em 20 anos, 98,4% confirmam as previsões!

Há muitas explicações para a inércia. Uma delas tem a ver com a natureza da ameaça. Crises como a dos mísseis de Cuba em 1962 precisam ser resolvidas em horas ou dias. Se o presidente Kennedy tivesse hesitado, em poucos dias seria tarde demais. Já o desastre ambiental é como um câncer de expansão lenta: sabe-se que ele está lá, que se nada se fizer, a morte é inevitável. Mas não se sabe o dia nem a hora. Isto é, uma catástrofe em futuro indeterminado carece da força para precipitar soluções difíceis.

O provável por isso é que só haverá ação decisiva para evitar o colapso definitivo depois de uma sucessão de calamidades espantosas. Quando isso suceder, muitas das consequências já se terão tornado irreversíveis como o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de cidades, a desertificação, a extinção de milhares de espécies.

Toynbee lembrava num dos seus últimos livros que nisso os homens deveriam  invejar insetos como as formigas, condicionados do ponto de vista psicossomático a agir coletivamente por instinto de sobrevivência. Estudo recente comprovou que os peixes já estão migrando para o norte em busca de águas mais frias. Enquanto isso, os seres humanos se deslumbram com o avanço em produzir e queimar mais gás a partir do xisto...

A razão talvez esteja com o poeta T.S. Eliot: o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido.

De 
Rubens Ricupero na Folha de São Paulo de 27/05/2013

sábado, 25 de maio de 2013

Evitando os riscos de um estupro

Evitando os riscos
As mulheres gostam de provocar e de se exibir, mas a sexualidade masculina é mais violenta
É curioso: quando acontece uma tragédia, logo surge uma onda de tragédias iguais ou muito parecidas; agora é a vez desse crime bárbaro que é o estupro.  Desde o horror que aconteceu com a turista americana, outros casos foram surgindo, e ultimamente são os adolescentes que têm aparecido no noticiário por abordar suas colegas de colégio de forma pouco respeitosa -para dizer o mínimo.
Em São Paulo, garotos se comportam de maneira condenável com meninas da mesma escola, sendo que são todos, eles e elas, muito jovens. As famílias das meninas se queixam à diretoria do colégio, que por sua vez procura os pais dos garotos, o assunto chega à imprensa e nada, ou quase nada, é resolvido.
Sobre o assunto, o caderno "Equilíbrio", da Folha, ouviu diversas opiniões. Rosely Sayão, colunista do jornal, se expressou dizendo que "a sexualidade desses jovens está muito exacerbada e eles não têm noção do respeito", e continuou: "a fase dos 13, 14 anos é a pior; é quando a efervescência hormonal se junta à hiperestimulação". Mais adiante, a psicóloga da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Renata Libório se dirige à família e à escola, pregando "por que não respeitar a menina, não importa a roupa que ela usa?" Estão certas as duas, e só me surpreendi ao saber que a sexualidade dos garotos está exacerbada tão cedo: 13, 14 anos? Pensava que nessa idade ainda fossem pouco mais que crianças.
Fiquei pensando: é claro que família e escola devem fazer de tudo para que esses adolescentes respeitem as meninas, mas, sinceramente, é difícil. Basta  ligar a televisão, ler as revistas e ouvir contar que as jovens estão "ficando" com vários garotos nas festas, se gabam de ter beijado cinco, dez ou 15, nem  sei. Outra leiloa sua virgindade, todas se vestem de maneira provocante -e vamos dar esse crédito a Xuxa: foi a partir de seus programas na televisão que a infância começou a ser sexualizada e que as crianças se vulgarizaram, passando a ter, como sonho de consumo, sapatos de saltinho, unhas pintadas, boca vermelha de batom, como verdadeiras chacretes em miniatura.
É claro que o ideal é que as meninas sejam respeitadas, mas, para isso, é preciso também que elas ajudem. As famílias devem orientar os filhos a serem seres civilizados, claro, e ao mesmo tempo ensinar às filhas a não usarem shortinhos, minissaias de um palmo, jeans que mal cobrem a virilha, tops mínimos, camisetas em cima da pele, e por aí vai. Se aos 13, 14 anos, a sexualidade dos meninos está exacerbada, não deve ser só a deles; a delas também. Desde que o mundo é mundo as mulheres gostam de provocar, de se exibir, de se sentir desejadas. Faz parte do jogo. Mas a sexualidade masculina é mais violenta e é aí que mora o perigo.
O mundo não é o que gostaríamos que ele fosse, e os riscos são permanentes, até para quem fica dentro de casa. Quem andar sozinha à noite numa rua deserta vai correr mais risco de ser assaltada; quem se vestir de maneira mais provocante vai correr mais risco de ser desrespeitada; quem abrir a porta de casa sem saber quem está batendo vai correr mais risco de ter sua casa invadida. Os meninos têm que fazer a parte deles, e as meninas, a delas.
E tem uma coisa que vejo nos jornais, mas que não consigo compreender. Estupro em ônibus, como assim? Como é possível haver estupro dentro de um ônibus?

Pois tem.

De Danuza Leão na Folha de São Paulo de 12/05/2013

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Drogas, não há mais inocentes


Segundo pesquisa do Datafolha, o maior temor dos paulistanos --45% dos entrevistados-- é o de que os jovens de sua família se envolvam com drogas. Em pesquisa idêntica há 30 anos, esse temor atingia apenas 23%. Cresceu o uso da droga, mas também a consciência do problema.

Não há mais inocentes sobre drogas. Todo brasileiro conhece alguém cujo filho, sobrinho ou neto se envolveu com elas e está levando a família ao martírio --e ele não gostaria que isso acontecesse na sua família. Mas, se não é inocente, o brasileiro continua desorientado e sem informação. Não sabe o que fazer quando se vê com o problema dentro de casa. Não conhece campanhas de prevenção e, ao contrário, o que mais ouve pela mídia é que "é preciso descriminalizar a droga" --como se, liberada, ela deixasse de devastar o usuário.

A maneira pela qual um jovem se aproxima da droga ainda é um mistério para a maioria dos pais. E, no entanto, é muito simples. Para entendê-la, bastaria que se lembrassem de como, há 30 ou 40 anos, tomaram seu primeiro chope ou acenderam o primeiro cigarro. O mecanismo é o mesmo: para fazer parte da turma, não passar por diferente, mostrar-se mais adulto. A diferença é que o efeito "recompensador" da droga é muito maior e mais imediato. Os que se dão bem com as primeiras experiências tendem a repeti-las.

Dar-se bem significa literalmente não se dar mal --sentir prazer, tolerar bem a agressão tóxica do produto e não sofrer os efeitos negativos, equivalentes aos da ressaca no álcool. Os que apresentam menor tolerância recusarão uma segunda oferta. Alguns jovens se darão melhor com uma droga do que com outra.

E ninguém se torna um usuário puro. Todo consumidor, um dia, oferece de graça a droga a um amigo ou compra um pouquinho a mais para revender. A isso se chama tráfico.

Texto de Ruy Castro na Folha de São Paulo 10/05/2013